domingo, 1 de janeiro de 2012

Desconfie de toda fofoca que os parentes contam

- O que é que te contaram?
- ...
- Pode falar, primão. Eu sei o que eu fiz. Eu quero é saber o que eles tão falando. Não precisa nem falar quem foi que contou.
- ...então. Resumindo, o que me contaram é que você desapareceu por uns dias, ou umas semanas, não sei. Aí todo mundo ficou doido atrás de você e foram te encontrar num lugar bizarro junto com uns sem-teto fumando crack.
Ele riu. Uma risada gostosa, com uma pitada de eunãoacreditonoqueeuestououvindo.
- Eu fico puto com isso! Família fofoqueira do caralho! Fala coisa que não tem necessidade nenhuma de falar e não conta a merda da história direito. Quer saber? Vou te contar o que aconteceu. Eu sumi por quatro dias e eles me encontraram na casa de um amigo meu cheirado de cocaína. Eu nunca usei crack. Mas agora eu vou contar a porra toda também.
E se ele tinha mais coisa pra contar, eu estava pronto e disposto a ouvir. Eu sempre estou disposto a ouvir.
- Eu não tava usando crack não. Eu tava traficando. É isso mesmo, seu primo é traficante, Rudah. E cafetão também. Já enfiei mais de oito puta de uma vez só dentro dessa merda desse carro. Puta de Nova Iorque, da Argentina, do Sul, do Rio, de São Paulo e do caralho-a-quatro. Só que aí, tu conhece seu primo. Perdi o controle. E não foi porque eu fui morar em outra cidade não. Eu cheiro, fumo, bebo e fodo desde os treze anos. Tu sabe disso. Tu me acompanhou numas quebrada dessas aí. Tá rindo de quê?

- Nada não, é que, eu tava com pena de você, seu filho da puta, agora a única coisa que eu consigo pensar é: filho da puta, filho da puta, filho da puta.

Ele riu de novo. Tragou o cigarro uma última vez e jogou a bituca pela janela. Terminei o meu e joguei pela janela também. Ele trocou música no rádio, passou a marcha, acelerou e então começou a tocar We found love.
- Eu falei pra minha mãe que se ela quisesse compartilhar a merda da história com os merda dos parente escroto dessa família, ela tinha que contar a porra toda, mas tu acha que ela vai contar que o filhinho dela tava sendo procurado por polícia e por bandido nos lado de lá? Tu acha que ela vai contar que o filhinho mimadinho dela virou traficante e cafetão? Nunca! Só que aí, os merda dos parente escroto chega pra mim cheio de peninha, cheio de nhem-nhem-nhem, perguntando como é que tô, se eu tô bem, se eu tô aprontando muito, mandando eu ter juízo. Se ela contasse a merda da verdade, eles iam parar de ter pena pra ter medo.
- Eu não tenho medo de você. Nunca teria. Nem se você apontasse uma arma na minha cara eu ia ter medo de você. Na verdade eu te entendo. Mais do que você imagina. Olha pra mim. Eu tô rindo. Sabe por quê? Porque essa história sim tem tudo a ver com o moleque que eu cresci. Isso sim é a sua cara, sinceramente.
- Boa, garoto!
- Tô falando sério. A verdade é muito mais interessante do que essas histórias que estão contando sobre você.

2 comentários:

  1. Nossas vidas são sempre mais interessantes do que o que os outros sabem dela. A minha é uma montanha russa em que quase ninguém experimentou todas as curvas.

    Adorei seu primo. Adoro pessoas autênticas.

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  2. Familia é foda....
    Caraca, ele fuma desde os 13 anos?
    Caraca...
    Se ele está feliz assim, isso q importa...
    Abraços

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